Barbosa manobra para estourar limite fiscal e triplicar gasto do CNJ com pessoal
Ministro do STF negocia para que tribunais superiores cedam limites de despesa; manobra contraria o TCU
BRASÍLIA - Sem conseguir nos bastidores emplacar no Congresso
mudanças na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o presidente do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Joaquim Barbosa, quer
editar resolução que praticamente triplica o limite de gastos do órgão
com o pagamento de pessoal. Em valores, Barbosa busca aumentar em R$ 74
milhões o teto do CNJ para contratação de servidores - de R$ 40,4
milhões para R$ 114,4 milhões. A manobra desafia o Tribunal de Contas da
União (TCU), que considera obrigatório o aval do Legislativo para as
alterações.
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Para
não precisar do Congresso, que desde 2009 debate novos parâmetros da
LRF para o Judiciário, Barbosa pediu aos presidentes de quatro tribunais
superiores (Superior Tribunal de Justiça, Superior Tribunal Militar,
Tribunal Superior do Trabalho e Tribunal Superior Eleitoral) que cedam
ao CNJ parte dos seus limites de despesas. A proposta de resolução,
assinada pelo ministro, precisa ser aprovada pelo plenário do conselho.
Sem ela, o órgão estourará o máximo de gastos definido pela legislação e
não poderá convocar todos os candidatos já aprovados no concurso feito
este ano.
Conforme informações encaminhadas pelo CNJ aos quatro
tribunais superiores, às quais o Estado teve acesso, o limite atual de
despesas "mostra-se insuficiente para comportar as presentes despesas e
os acréscimos decorrentes do provimento de cargos". Os gastos previstos
na lei orçamentária já ultrapassariam o limite de despesas com pessoal
definido para este ano. Em alguns cenários, incluindo aumento de salário
e contratação dos 177 candidatos aprovados em concurso para o CNJ, o
limite poderia ser extrapolado em cerca de R$ 9 milhões.
O CNJ foi
criado após a aprovação da LRF, sancionada em 2000. Por isso, os
limites de gastos do órgão vêm sendo definidos por normas internas - a
mais recente é a Resolução 26, de 2006, em vigor atualmente. Segundo o
TCU, contudo, a solução é irregular, pois uma lei complementar não pode
ser alterada pela caneta dos conselheiros. "Como a divisão interna dos
porcentuais entre os diversos órgãos do Poder Judiciário foi feita a
partir de um comando expresso contido na LRF, esses valores não ensejam
modificação apenas por meio de uma resolução daquele órgão. A via
legislativa é o canal indicado para a promoção dessas alterações", diz
decisão da corte de contas, que analisou a reivindicação em 2008 e
recomendou ao conselho que tomasse providências para que as mudanças
tivessem o aval do Congresso.
Desde 2009, um projeto visando à
adequação dos parâmetros tramita no Legislativo, mas não foi votado.
Diante disso, Barbosa pretende levar adiante a aprovação de mais uma
resolução, aumentando as despesas do CNJ, apesar do entendimento do
Tribunal de Contas. A restrição feita pelo tribunal foi lembrada aos
assessores de Barbosa. Mas, segundo fontes dos tribunais, o presidente
decidiu levar o projeto adiante.
Procuradores do Ministério
Público que atuam no TCU adiantam que, aprovada a norma no CNJ, cabe
representação para que a corte analise novamente o caso. "Se a matéria é
tratada por lei, você não pode alterar por portaria ou resolução, a não
ser que a própria lei preveja assim", diz um dos representantes do MP,
que falou reservadamente com o Estado.
O presidente do CNJ e do
Supremo Tribunal Federal criticou, nos últimos dias, a proposta de
criação de quatro novos tribunais regionais federais e o consequente
aumento de custos no Judiciário. No começo de sua gestão, chegou a
sugerir no CNJ que uma comissão avaliasse a necessidade da existência
Justiça Militar.
Desta vez, Barbosa viu-se compelido a pedir a
anuência dos presidentes do Conselho da Justiça Federal (CJF), Felix
Fischer, e do Superior Tribunal Militar (STM), general Raymundo Nonato
de Cerqueira Filho.
Em documento enviado à presidente do Tribunal
Superior Eleitoral, Cármen Lúcia, e ao presidente do Tribunal Superior
do Trabalho, ministro Carlos Alberto Reis de Paula, Barbosa pede que
todos se manifestem favoravelmente à nova resolução.
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