Como lidar com o dilema de ajudar ou não parentes financeiramente?
-
Viajar ou ajudar um irmão com dificuldades? Independentemente da decisão, ela deve te fazer bem
O descompasso financeiro entre as pessoas, principalmente da mesma
família, pode levar a situações desconfortáveis ou constrangedoras, além
do sentimento de culpa em quem está em uma situação melhor. Viajar ou
ajudar um parente? Contar ou não ao irmão desempregado que vai comprar
um apartamento ou trocar de carro? Dar presentes sofisticados nos
aniversários ou optar por lembrancinhas mais de acordo com o poder
aquisitivo dos familiares? São questões que parecem simples, mas nem
sempre têm respostas óbvias.
"Família é uma instituição com enorme força, seja ela boa ou não. É
nela que se estabelecem os primeiros acordos, as primeiras negociações,
as primeiras demonstrações de lealdade", diz Blenda de Oliveira,
psicóloga clínica e psicanalista pela Sociedade Brasileira de
Psicanálise/SP. Ou seja, ser diferente, pensar diferente, ter outro
estilo de vida ou construir valores próprios podem criar sentimentos de
traição nos pais ou irmãos, por exemplo.
Aquele que tem mais dinheiro acaba se sentindo culpado por ter uma condição financeira
melhor do que os outros. Um sentimento que tem mais razões subjetivas
do que reais. "Não há por que sentir vergonha nem por ter mais nem por
ter menos", fala o professor Aurélio Melo, coordenador do GAEPE (Grupo
de Atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão) Psicologia do
Desenvolvimento, da Universidade Mackenzie, em São Paulo.
A condição financeira pode ser resultado de uma combinação de sorte,
trabalho e facilidades que alguns tiveram e outros não, conforme diz o
professor Aurélio Melo. Portanto, "não há sentindo em nos culparmos por
algo que não depende de nós", acrescenta. Principalmente se o dinheiro
foi obtido honestamente. "Não é crime ter uma vida melhor materialmente
do que aquela da sua família. Entretanto, o processo de diferenciação
pode provocar sentimentos de não mais pertencer ao grupo familiar", diz
Blenda.
Outra situação incômoda que pode aparecer é a família se sentir
humilhada diante do poder aquisitivo maior do seu membro mais abonado.
Como agir se isso acontecer? Para a psicanalista Blenda de Oliveira, não
adianta fazer de conta que tem um menor poder aquisitivo só para
aliviar os sentimentos de humilhação ou inveja que os familiares possam
vir a sentir. "Se há esse sentimento, cabe aquele que o carrega
resolver", diz ela. Já para o professor Aurélio, ser discreto e simples
pode ajudar o outro a não se sentir mal. "Mas não temos controle total
sobre isso. Há pessoas que sempre se sentirão inferiores", afirma.
Ter conforto ou ajudar?
No dia a dia, há situações que põem à prova os dois lados, o que tem
mais e o que tem menos. Por exemplo, na hora em que um parente pede
dinheiro emprestado. "Em primeiro lugar, deve-se pensar que não há
obrigação em dar ou emprestar", diz Cecília Zylberstajn, psicodramatista
e psicóloga pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo). Também é preciso tomar cuidado para que a relação com os
parentes não fique apenas baseada no dinheiro.
"Temos uma crença muito forte de que o dinheiro é algo sujo ou mau. Por
isso, apropriar-se dele e negar a cedê-lo ou escolher para quem e onde
colocá-lo vêm sempre associados a uma ideia errônea de egoísmo", diz
Blenda.
Isso sem contar a sensação de que há a "obrigação" de auxiliar as
pessoas da família, o que pode levar a dilemas como: viajar ou ajudar o
sobrinho a pagar suas mensalidades atrasadas da faculdade? Para o
professor Aurélio Melo, a ideia de justiça pode ajudar a decidir. Basta
fazer algumas perguntas: "Estou sendo justo comigo ajudando o outro?
Isso me faz bem? É um dever meu? É algo que não preciso, mas me fará
bem?". As respostas mostrarão o que fazer.
Há outros momentos em que situações financeiras diferentes também podem
criar desconfortos: em aniversários ou Natal, por exemplo. Nesses
casos, a pergunta é: quem pode mais, deve ou não dar presentes mais
caros, até mesmo para os seus próprios filhos? Como ficará a situação
diante dos outros membros da família, que não têm tantas condições
assim?
"Cada um deve presentear dentro de suas próprias condições", diz
Cecília Zylberstajn. "Há famílias que lidam bem com essas discrepâncias,
outras não. O ideal, para não causar constrangimentos, é dar um
presente mais caro para o filho em outra situação, como em seu
aniversário, e não no Natal, na frente de todo mundo".
Segundo Blenda de Oliveira, a melhor maneira de lidar com situações
assim é sempre usar o bom senso. "Sou partidária de manter certa
privacidade em situações que podem causar incômodos, o que não deixa de
ser uma escolha que prioriza o bem-estar e, além de tudo, é generosa".
Quando o relacionamento torna-se muito complicado, com atitudes
agressivas ou ironias de ambos os lados, chega o momento de avaliar o
relacionamento familiar, afirma Cecília Zylbertajn. "Infelizmente, o
dinheiro, às vezes, separa as pessoas", afirma. Nesse momento, é hora de
questionar se a família está te fazendo bem. Em alguns casos, o único
jeito é se afastar. Ou, como diz a psicóloga e psicodramatista, "criar
uma distância saudável e amigável".
Nenhum comentário:
Postar um comentário