Da vida de assaltante à cadeira de deputado
Luiz Moura (PT) foi preso, condenado, foragido e hoje está na Assembleia de SP
Ele praticou
assaltos à mão armada, passou mais de um ano e meio na cadeia e acabou
fugindo, antes de cumprir o total de 12 anos de prisão a que fora
condenado. Na sentença judicial, foi classificado pelo juiz como
"periculoso sob o aspecto social" e teve sua personalidade avaliada pelo
magistrado como "mal formada e inclinada para a prática de crimes
contra o patrimônio".
Passou quase uma década na condição de
fugitivo, até que voltou à Justiça para dizer que as penas haviam
prescrito e pedir a reabilitação criminal, alegando que praticara os
crimes porque usava drogas. Em meio à reabilitação, que lhe seria
concedida, tornou-se líder dos perueiros na zona leste de São Paulo e
virou empresário do ramo de transportes. Em 2010, decidiu entrar na
política. Elegeu-se deputado pelo PT e, hoje, exerce mandato na
Assembleia.
Ele é Luiz Moura, 42 anos, casado, natural de Batalha
(AL), com base eleitoral na zona leste, irmão do vereador Senival Moura
(PT) e dono de um patrimônio declarado de R$ 1,1 milhão, do qual R$ 700
mil de quatro postos de gasolina de que é dono.
O dia 21 de agosto
de 1991 se aproximava das 19 horas quando Luiz Moura, na companhia do
amigo Vagner Onofre, entrou no supermercado Planalto, em Umuarama (PR),
já perto do encerramento das atividades. Perguntaram ao vigia Benedito
Paulo Ferrari por uma escova de dentes.
No momento em que o vigia
se virou para indicar a gôndola, Onofre deu-lhe a chamada "gravata",
apontou uma pistola Taurus calibre 380 contra a têmpora e deu voz de
assalto. Com o vigia como refém, gritou para os demais presentes para
avisar do que se tratava.
Enquanto isso, Luiz Moura obrigou os
funcionários dos caixas a lhe entregarem dinheiro, cheques e
tíquetes-restaurante. Os dois fugiram em uma motocicleta de propriedade
de um irmão do hoje deputado. Levaram com eles cerca de CR$ 560.000,00,
ou, em valores corrigidos para hoje, R$ 6.636.
No dia 26, a cena
se repetiria. Tendo vencido os mais de 770 quilômetros que separam
Umuarama da cidade de Ilhota (SC), os dois aportaram, por volta das 17
horas, em uma filial do supermercado Vitória. Pegaram uma escova de
dentes e se dirigiram para o caixa. Onofre fingiu que ia tirar dinheiro
do bolso traseiro da calça, mas puxou a mesma pistola Taurus e a apontou
para a cabeça de uma funcionária, ordenando que ela ficasse
"quietinha". Gritando palavrões, ordenou que Arlete e outra operadora
"limpassem" os respectivos caixas. O dinheiro e os cheques foram
entregues a Luiz Moura, que também gritava, xingava e dava ordens. Os
dois fugiram na mesma moto.
Um homem que passava pelo local avisou
a polícia sobre o roubo e as características do veículo e dos
assaltantes. No dia seguinte, eles passavam pela polícia rodoviária
quando foram presos. Levavam dinheiro e dez cheques que somavam CR$
205.000,00 (em valores de hoje, R$ 2.429).
À Justiça de Umuarama,
para onde foram transferidos, Luiz Moura admitiria o primeiro roubo.
Diria, porém, que, quando passavam pelo supermercado, Onofre lhe apontou
a arma e o obrigou a assaltar. Afirmaria também que, nas cidades por
onde passaram, no Sul do País, costumava ficar no hotel quando Onofre
saía para vender planos de saúde da Golden Cross. Ele negaria ter
assaltado em Ilhota.
Onofre alegou que os cheques eram de
terceiros e lhes foram repassados por compradores do plano de saúde.
Contudo, a maior parte dos cheques estava marcada com o carimbo do
supermercado Vitória. Ademais, ambos foram reconhecidos pelos
funcionários dos supermercados e, no caso catarinense, pelos policiais
que os prenderam.
A Justiça de Umuarama refutaria, na sentença de
março de 1992, a tese de que Luiz Moura fora coagido pelo comparsa: "Se
os acusados não fossem amigos, e a coação tivesse existido, o réu Luiz
de Moura Pereira não ficaria, após os fatos, aguardando o acusado Vagner
em um quarto de hotel de uma cidade do interior de Santa Catarina, sem
que buscasse proteção ou até mesmo a fuga". Ambos foram condenados a
cinco anos e quatro meses em regime semiaberto.
Remoção. Luiz
Moura escrevera, em novembro, uma carta de próprio punho à Justiça para
pedir a remoção para a Colônia Penal Agrícola, sugerida pelo tribunal
para o cumprimento do semiaberto. "Não temos nem um tipo de assistência,
como psicólogo, assistente social, médico, odontologista e até mesmo
alimentação, que é o nosso ponto mais crítico que enfrentamos e por tais
motivos e direitos humanos, achamos por bem pedir clemência em nos
conceder remoção (sic)".
A remoção foi concedida em março de 1993.
Menos de uma semana depois, Luiz Moura, que deveria dormir na prisão
durante o restante da pena, fugiria para não mais voltar até que a pena
prescrevesse.
Em agosto de 1993, transitava em julgado a
condenação de seis anos e oito meses em regime fechado, imposta em
primeira instância. O petista, contudo, já estava foragido.
Em
2000, advogados de Luiz Moura voltariam à Justiça de Umuarama para pedir
a decretação da prescrição da pena, o que ocorreu em 2002.
Vergonha.
No caso catarinense, em 2005 ele pediu sua reabilitação criminal. Seus
advogados sustentaram que ele era "um exemplo a ser seguido". "Quando
jovem teve aqueles problemas no âmbito criminal, originado por ingerir
substância entorpecente. Sentindo muita vergonha, não suportava ver sua
mãe se deslocar de São Paulo para visitá-lo no presídio. Pobre, com
sacolas nas mãos, viajava de ônibus centenas de quilômetros. Aquilo foi
atormentando o ora reabilitando, que, buscando mais poupar sua mãe
daquele sacrifício, decidiu por evadir-se, apegar-se a Deus e prometer
nunca mais ter envolvimento criminal."
Segundo os advogados, Luiz
Moura dava palestras em escolas sobre uso de drogas "para auxiliar os
jovens, evitando que tenham qualquer tipo de envolvimento criminal". A
reabilitação foi confirmada em julho de 2006.
Embora em 2005 tenha
informado que vivia em "falta de condições econômicas", e que em 2003
seus rendimentos foram de R$ 15,8 mil em todo o ano, em 2009 Luiz Moura
virou sócio da empresa de ônibus Happy Play Tour, com um total de R$ 4
milhões em cotas. No começo de 2011 ele sairia da empresa.
As
várias tentativas de contato do Estado com Moura, via assessoria de
imprensa e depois com seu advogado, não tiveram retorno. Ao invés de
responder às questões, ele se limitou a enviar ao jornal a notificação
publicada ao lado.
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