No interior do Nordeste, médico só tem "mesinha, caneta e estetoscópio"
Segundo médico concursado da prefeitura de Caucaia (CE), salários e possíveis calotes são secundários em meio aos problemas estruturais
Os médicos do país protestam nesta quarta-feira (3)
contra a proposta do governo federal de trazer profissionais de outros
países para atuar em locais onde os médicos brasileiros não atuam.
Para o governo, não há profissionais suficientes no país. Mas os
médicos alegam que o problema está na falta de incentivo á
interiorização por conta dos problemas estruturais, uso político dos
médicos e até calotes sofridos pelo interior do país.
O UOL ouviu profissionais que atuam no interior do
Nordeste --onde existe a maior carência de médicos-- e ouviu relatos de
diversos tipos de problemas.
O médico Antonio Aderlandro Oliveira atua hoje como anestesista em
Caruaru (PE), mas recorda do tempo em que sofreu de município em
município pelo interior do Ceará, após se formar, em 2004.
"As condições eram as mais precárias possíveis. O que tem nessas
cidades é uma mesinha, uma caneta e um estetoscópio. A infraestrutura é
praticamente zero", contou o médico, que trabalhou em programas de saúde
da família nas cidades cearenses de Trairi e Boa Viagem.
Outro problema apontado por ele é a falta exames complementares para os pacientes. "Tínhamos uma cota que nunca dava para atender a demanda. Tínhamos que escolher os pacientes, e muitas vezes não era nem feito", relatou.
Oliveira também diz que há uso político dos médicos. "Se você não está
no lado da prefeitura, perde o emprego. É o prefeito quem contrata e
quem demite", disse.
Especialista em atenção básica, o médico Luis Guilherme Costa também
conta que sofre com a falta de estrutura e relata que falta estrutura
complementar para resolução dos problemas dos pacientes. Hoje ele é
concursado da prefeitura de Caucaia (CE) e diz que os salários e
possíveis calotes são secundários em meio aos problemas estruturais.
"Há grande dificuldade em encaminhamentos de pacientes. Algumas coisas
não se resolvem na atenção básica, e você não tem a resposta", disse.
Outro problema citado por Costa é a formação precária de outros
profissionais que atuam nos postos e secretarias municipais de Saúde. "O
que acontece é que nós, médicos, acabamos expostos e acumulando a
responsabilidade de outros", apontou.
Médicos protestam pelo país16 fotos
03.jul.2013:
Médicos participam de manifestação na Boca Maldita, no centro de
Curitiba(PR), nesta quarta-feira. O ato faz parte uma mobilização
nacional para protestar contra o projeto do governo federal de trazer
profissionais estrangeiros para atuar, temporariamente, no Sistema Único
de Saúde (SUS) sem exigir a revalidação dos diplomas. Eles também pedem
uma carreira pública e que 10% do Orçamento da União seja aplicado na
saúde Leia mais Giulianao Gomes/Estadão Conteúdo
Remédio que não se usa
Por conta de problemas, o médico conta que já se demitiu por duas vezes
de empregos que possuía. "Em uma delas, em Juazeiro do Norte, além de trabalhar
no posto, ensinava na faculdade. E saí porque chegou um momento em que
estava ensinando coisas erradas porque não tinha como fazer certo. Um
exemplo: havia remédio para asma comprado pela prefeitura que não se
usa, mas a prefeitura insistia em comprar. E você insiste, mas não
consegue passar isso para os governantes", contou.
Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas, Wellington
Galvão, não faltam médicos no pais, mas, sim, políticas públicas para
interiorizar os profissionais, que hoje preferem ficar em grande
centros, onde conseguem maior estabilidade.
Salários
Galvão alega que, além da precária estrutura, são comuns os problemas
em relação de salários de profissionais que trabalham no interior.
"Temos várias ações de médicos que saíram por não receber salários,
principalmente nessas mudanças de gestão. Tem também muita prefeitura
que não paga o 13º salário e temos que ingressar na Justiça. É uma
situação difícil", afirmou.
Faltam médicos
Já os gestores defendem a teoria de que faltam profissionais no país. O
Conselho Nacional de Secretarias de Saúde divulgou carta, na semana
passada, afirmando que a falta de profissionais é "um problema real e
que precisa ser sanado urgentemente" e "declara apoio total e irrestrito
à vinda de médicos estrangeiros."
Um dos exemplos citados pelo conselho é o Provab (Programa de
Valorização do Profissional da Atenção Básica), que prevê o pagamento de
bolsa federal de R$ 8 mil para o médico que aceitar atuar em periferias
de grandes cidades e ou áreas remotas.
"Dos 2.867 municípios que pediram profissionais pelo Provab, 1.581
municípios não atraíram nenhum. Com isso, apenas 29% da demanda nacional
por 13 mil médicos foi atendida: 3.800 participantes foram para 1.307
municípios brasileiros", diz a carta.
Na prática, a situação é mais grave nas regiões Norte e Nordeste. Em
fevereiro, o prefeito de Corrente (PI), Jesualdo Barros (PTB), precisou
fazer um apelo pelo Facebook para que a cidade contratasse médicos. Mesmo com a repercussão, nem todas as vagas foram preenchidas à época.
"Mesmo que eles digam que não faltam médico, a gente sabe que não tem o
profissional no mercado. E quando temos, não tem a carga horária
suficiente", disse a presidente do Conselho de Secretários Municipais de
Saúde de Alagoas, Normanda Santiago.
A secretária admite que alguns municípios não têm a estrutura
necessária, mas alega que essa não é a maior dificuldade para contratar
profissionais.
"Em algumas cidades falta estrutura, realmente. Mas tem município com
estrutura e bons salários que não consegue contratar. A cidade também
precisa de atrativos, e muitas deles não têm atrativo, lazer algum. Por
isso que, mesmo com incentivos, não consegue", explica Santiago.
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