"Tiraram um pedaço de mim", diz viúva de homem que morreu após transplante no Rio
- O ajudante de caminhão Josinaldo Severino da Silva, 51 anos, uma das três pessoas que morreram após transplantes com órgãos contaminados no Rio
Desolada, a dona de casa Maria José Ferreira da Silva, 55 anos, tenta
se reerguer após a perda do marido, o ajudante de caminhão Josinaldo
Severino da Silva, 51 anos. Ele foi uma das três pessoas que morreram após transplantes com órgãos contaminados
no Rio. Paciente renal crônico há cinco anos, ele passou por cirurgia
no último dia 10 no Hospital Federal de Bonsucesso, localizado na zona
norte da cidade, e morreu nove dias depois na mesma unidade.
As três vítimas receberam os órgãos vindos de uma mulher havia tido
morte encefálica no Hospital Municipal Souza Aguiar, unidade situada no
centro da cidade. Exames realizados em um dos rins transportados
apontaram para a presença da superbactéria KPC (Klebsiella pneumoniae), resistente a quase todos os antibióticos.
"Tiraram um pedaço de mim. Um dia antes dele morrer eu pedi ao médico
para, por favor, salvar meu marido. O mais triste é ver meu marido
morrer querendo realizar um sonho. O sonho dele era se livrar daquela
máquina de hemodiálise. Eu não me conformo com isso", disse a dona de
casa.
Segundo ela, até a véspera da morte do marido, o hospital dizia que
estava tudo bem, ainda que ele reclamasse de fortes dores no corpo. "No
dia seguinte à cirurgia ele estava com uma das pernas avermelhada e
reclamando de fortes dores na barriga, que estava inchada. Eu perguntei
para o enfermeiro o que estava acontecendo e ele me disse que era
normal" disse.
"Dois dias depois, a barriga estava ainda mais inchada e ele reclamava
mais ainda das dores. No domingo (16), fizeram uma tomografia, mas ainda
assim disseram para eu ficar tranquila. Somente na terça-feira à
tarde, com ele já entubado, um médico me disse que ele corria risco de
vida devido a uma infecção e que estavam aplicando antibiótico para
reverter o quadro. Na quarta feira de manhã, me ligaram do hospital
dizendo que ele havia morrido", completou.
Ela lembra, ainda, que antes da cirurgia o marido estava bem, apenas
com alimentação restrita, mas com uma vida relativamente normal, fazendo
três sessões de hemodiálise por semana. "Caminhava normalmente,
brincava com a neta. A paixão dele era a neta de cinco anos. Estava tão
feliz que nem me esperou para acompanhá-lo no hospital. Foi sozinho.
Estava sorridente e brincalhão. Queria só se livrar daquela máquina",
disse.
Convencida que o marido morreu por erro médico, ela afirmou que
pretende recorrer à Justiça contra os responsáveis. "Eu vou até o fim.
Não sei de quem é a culpa, mas eu quero justiça", declarou.
Moradora da comunidade Jardim Metrópole, em São João de Meriti, na
Baixada Fluminense, ela e o marido viviam com uma renda de apenas R$ 678
mensais, auxílio-doença recebido da Previdência Social desde que o
ajudante de caminhão parou de trabalhar.
"Agora eu fiquei sem marido, sem pensão, sem recurso, agora eu não
tenho nada. Fica tudo muito difícil", lamentou. Josival era casado há 30
anos com Maria José. Ele deixa três filhos e a neta.
Investigação
As outras vítimas dos transplantes são uma mulher de 49 anos que
recebeu um rim em cirurgia no Hospital Universitário Clementino Fraga
Filho (Hospital do Fundão) e uma outra mulher que recebeu um fígado em
transplante realizado no Hospital Adventista Silvestre.
O núcleo do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro foi procurado para
comentar a reportagem. O órgão informou apenas que os casos estão sendo
investigados.
A direção do Hospital Municipal Souza Aguiar, onde a doadora esteve
internada, antes de morrer, informou que todos os pacientes da Unidade
de Terapia Intensiva passam por rigoroso e rotineiro rastreamento de
infecções, com os respectivos tratamentos e controles necessários.
"Todos os casos de morte encefálica ocorridos em unidades hospitalares
são de notificação compulsória à Central de Transplantes. Os casos
passam então a ser acompanhados por cirurgiões transplantadores do
Programa Estadual de Transplantes (PET), a quem cabe a decisão sobre a
elegibilidade do paciente como doador", informou a Secretaria Municipal
de Saúde.
De acordo com o PET, a paciente não tinha um quadro clínico de infecção que inviabilizasse a doação dos órgãos.
"O transplante de rim deve ser feito em até 36 horas após a retirada do
órgão e o de fígado, em até 12 horas. Os dados de literatura de
transplante mostram uma incidência de cerca de 1% de transmissão de
doenças de doadores para receptores e o PET está dentro dessa faixa. Se
for confirmado, esse será o primeiro caso desde a existência do PET",
diz a nota.
O PET alega, ainda, que "a decisão final de transplantar ou não é da equipe cirúrgica que atende o receptor".
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